Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Receita de Família




"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema...Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir...Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente...Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

 Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre.

 Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.

Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

Trechos do livro "O Arroz de Palma" de Francisco Azevedo.
nota da Lu* - esse trecho é para vocês, meus amigos blogueiros, afinal também formamos uma família!

9 comentários:

  1. Olá, Lu! Não é fácil assar uma família sem que embuche aqui e e ali... é preciso paciência, amor, tolerância... adorei o texto, digo que é um dos melhores que já li sobre o assunto. Mas é como eu sempre digo: a gente pode até brigar com eles o tempo todo, mas ai de quem falar mal... rsrsrsrs...

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  2. oi Lu,

    muito bom te ver de volta aqui,
    família é um prato simples demais,mas que quem o cozinha quer sempre dar uma sofisticada,
    aí estraga tudo,
    ou os sabores são tantos que não se misturam e um tira o brilho do outro,
    ou então fica tudo totalmente sem graça que ninguém gosta...
    difícil,né?
    talvez o melhor fosse ficar no trivial,
    temperinho caseiro e bem feitinho todos os dias...

    beijinhos

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  3. Ana, os temperinhos temque ser sempre os básico. Pitadas críticas e/ou aimentadas para dar aquele toque (preste atenção). Mãos cheias de amor e respeito. Colheradas de paciência e sinceridade. Algums polvilhadas de confiança e na mesma proporção vale a desconfiança para nçao quebrar ovos ao pisar em terreno infértil.
    Gramas bem pesadas de generosidade, aelgria, bem querência e pouquíssimo condimento para não causar indigestão.
    Certo. amiga?
    Difídil dosar tudo isso né?
    MEUS SAIS! kkk

    beijos pa ti doce amiga

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  4. Rô,docinho,que saudade de ti e de teus corações rosados, cheio de amor e sinceridade. Logo mis vou te ver ai na casa dos corações.

    Fiquei contente com tua visita. meu afeto sempre, lindeza!

    Nós sempre percebemos quem de fato gosta da gente, fica escancarado.E c é uma dessas pessoas, assim - queridas!!

    Afinal não custa nada abrir o coração e ser verdadeira.

    bacios minha lindeza
    :D

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  5. O melhor desse prato é que ele é preparado a dois - no mínimo...
    Beijo.

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  6. rsrs... esse mínimo é que bota o tempero, assa e põe a mesa!

    bacio caríssimo

    :D

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  7. Não conhecia o texto e ele é repleto de verdades. Família é tudo de bom, independente de, algumas vezes, o prato estar salgado ou sem tempero.
    Ela só precisa de amor e respeito para ser servida a contendo e a contento.

    Bjs.

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  8. Olá LU,

    Uma crônica bem interessante e de conteúdo bem verdadeiro.
    Gostei especialmente da recomendação final:
    "Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."
    Com todos os gostos e sabores, família é sempre uma benção.

    Bem-vinda de volta, querida. Vi você na Cidinha e fiz uma ponte aérea para cá.

    Beijo.

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  9. Oi, Lu. Adorei a receita de familia! Passando para agradecer e desejar um ótimo feriado. Obrigada querida! Bjos.

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VEM!

Lu C.