sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Dá-me tua mão
Algumas experiências de vida deixam cicatrizes em nós e não há nada que as façam desaparecer. Talvez seja porque precisamos aprender com elas. E em minha vida quase sempre foi assim:" aprender com dor".
Uma dessas experiências aconteceu quando meus avós maternos foram internados em uma casa de repouso. Minha avó foi primeiro porque já não tínhamos mais como cuidar dela, posto que o mal de Alzheimer já estava em grau avançado e ela estava agressiva e a demência já instalada fazia com que ela cometesse atos impossíveis de conter.
Um dia, fizemos uma reunião de família e minha mãe junto com meus tios resolveram interná-la. Meu avô não queria, mas ele nem foi ouvido porque a situação era periclitante.
Foi nos indicada então por amigos uma casa de repouso perto da residência deles e lá fomos nós, eu mamãe e minha tia, conhecer e conversar com a proprietária.
Chegando lá vimos que se tratava de uma casa térrea muito grande com jardins na frente, a casa situada no meio do terreno e ao fundo um pequeno pomar.
Ao entrar ali eu senti uma punhalada no peito e pensei: "como será a vida da vovó aqui?" Inútil pensar assim porque minha avó já não conhecia mais a gente e raramente se lembrava das coisas e pessoas e nem de sua identidade ela sabia.
Enfim fomos recebidas por D. Mercedes, a proprietária, que nos levou para sua sala a fim de discutirmos a situação. Eu nada dizia, apenas ouvia o tagarelar daquela mulher que mais parecia uma vendedora de sonhos (últimos) e, claro que ela nem se abalava com a doença de minha avó, afinal o asilo continha outros terrores.
Depois de acertamos as condições de internação e o precinho absurdo (porém aceitável) - justamente por ser uma clínica de boa fama com profissionais sérios e responsáveis, fomos conhecer a casa.
Gente, quando entrei na sala principal eu desmoronei, nem sei direito explicar. Senti um misto de pavor e pena, mas respirei fundo e encarei os idosos nos sofás. Uns assistiam tv, outros falavam sozinhos. Algumas senhorinhas nanavam bebes de brinquedo e outros idosos caminhavam de um lado para o outro. Com meu olhar aturdido, virei-me olhando para o jardim e vi alguns em cadeira de rodas tomando sol e sendo acompanhadas de enfermeiras... Sem demora puxei o braço de minha mãe e falei: " Mã, não vamos trazer a vovó pra cá, por favor!" Nem sei porque eu dizia aquilo se já haviam decidido e não havia mais jeito...
Depois de "aprovarmos" a casa de repouso, voltamos para a sala da gerência e lá contamos o histórico de vovó, que foi arquivado em seu prontuário.
D. Mercedes disse que assim que ela chegasse seria examinada e receberia as medicações necessárias. Pediu para trazer suas roupas, travesseiro, chinelos, toalhas de banho e kit de higiene porque ali todos tinham o seu. Achei justo! Mas não me conformava.
Sai de lá desolada e muda. Minha mãe também estava quieta e muito séria, já minha tia que era nora, apresentava um semblante aliviado.
Vovó foi internada logo em seguida. Isso aconteveu no ano de 2000 e lá ela viveu até 2004, vindo a falecer com 86 anos, vítima de parada cardíaca.
Neste interim, meu avô ficou muito doente, creio que mais por falta dela do que outra coisa. Ele foi internado no ano seguinte e descobrimos que estava com câncer de próstata e que não havia mais nada a fazer porque a doença já estava avançada. Lá dentro ele ia visita-la em seu dormitório e falava com ela como se ela pudesse ouvi-lo...
Coisa triste de ver e lembrar (agora).
Eu ia sempre visitar os dois e conversava com meu vô porque ele estava lúcido, mas a tristeza dele era maior que a aquela casa, que aquele jardim, que aquele céu...
Uma madrugada meu avô foi de ambulância para o hospital e faleceu no caminho.
Vovó viveu mais um pouco e se foi no alvorecer de um dia chuvoso.
Essa experiência valeu 10 anos de minha vida. É como seu eu tivesse vivido já esses 10 anos e aprendido tudo rápido com muita dor. No entanto eu estava aliviada por não mais vê-los sofrer.
Lembro deles como eram na minha infância e adolescência, mas a saudade as vezes aperta o coração e as lágrimas chegam lavando minha alma.
O respeito aos idosos ficou maior em mim e aprendi que eles devem ser amados sempre, até o fim.
Amem e cuidem de seus idosos, eles precisam de vocês.
by Lu Cavichioli
Assinar:
Postar comentários (Atom)





Lindo, emocionante esse texto. Minha mãe está numa clínica por recomendação médica e sei bem do que falas. beijos,chica
ResponderExcluirLú,chorei ao ler tua história, mas choro feliz, porque percebo que tu tens um lindo coração. É muito gratificante descobrir os grandes sentimentos nos nossos amigos.
ResponderExcluirUm abração. Tenhas um sábado maravilhoso.
Pungente, mas mais comum do que muita gente pensa. E o sentimento de impotência pesa mais que tudo.
ResponderExcluirBeijos, Lu.
Um texto que tocou-me de forma muito especial... meu avô morreu aos 72 anos. Tinha uma saúde de ferro, não tomava remédios. Teve um derrame fulminante, e nada sofreu. Meu pai também, foi-se da mesma forma. Minha mãe sofre por uma semana, embora os médicos dissessem que ela nada sentia, pois estava sob efeito de soníferos e analgésicos fortes. mas visitá-la, ver aquela alma aprisionada, olhar para aquele corpo irreconhecível - inchou tanto, que as ruguinhas sumiram, e ela dobrou de tamanho - foi uma das experiências mais dolorosas de minha vida. Passei a véspera e o dia de Natal todo chorando. Passei a semana entre natal e ano novo sentindo uma dor imensurável. Até que veio a notícia de que ela tinha morrido, na manhã do dia primeiro. Senti alívio.
ResponderExcluirÉ muito difícil lidar com situações da espécie. Meu pai teve uma esclerose precoce, descoberta quando ele começou a ter dificuldades para dirigir, não encontrando a marcha correta. Pensávamos que era um pequeno problema de memória e o médico, sem qualquer sensibilidade, nos disse que seria daí para pior e que era para a família se estruturar porque o quadro seria irreversível. Destruiu minha mãe, que entrou em profunda depressão. Pouco tempo depois ele sofreu uma queda, fraturou o fêmur e não mais andou. Não possuía o entendimento necessário para acompanhar a fisioterapia. Muitos nos disseram para colocá-lo em uma clínica, eis que perdera a lucidez. Rejeitamos a ideia, não íamos deixá-lo aos "cuidados" de estranhos. Assim, ele viveu, por anos. Mantivemos enfermeira, colchão especial, cama hospitalar, tudo que podíamos fazer para que ele não sofresse. Mas estou certa de que sofreu porque, por segundos, costumava, de vez em quando, chorar. Passava logo, mas imaginávamos que, naquele instante, ele percebia o que estava acontecendo. Era um homem bom e honesto, um cristão de fé. Não sei porque Deus o fez passar por isso, mas estou certa de que está ao lado dEle, em ótimo lugar. Bjs.
ResponderExcluir
ResponderExcluirLU,
Fiquei emocionada ao ler este seu depoimento. Lembrei-me de quando meu pai adoeceu, com o mesmo mal de sua avó. Já não conhecia ninguém e ainda "escapulia" e era uma tortura procurar por ele. Arrumamos uma enfermeira, mas ele a empurrava e xingava por ela estar sempre atrás dele. Meu pai sempre foi um homem forte, caladão, respeitoso e bonitão (rs). Minha mãe entrou em depressão. Foi um período difícil e de muita luta. Ele viveu mais sete anos, embora acamado devido a uma queda onde fraturou o fêmur, sendo assistido por enfermeiras e com o carinho da família. Lembrando disso, sinto até vontade de chorar.
FUI!
Beijo.
Engraçado, miga!
ResponderExcluirNão conhecia essa sua história, mas é como se já a conhecesse...
Porque sei do seu enorme coração.
Porque conheço que sua vida é feita de aprendizados doloridos, como a minha.
Há sintonia nisso tudo, não é mesmo?
Muito enternecedoras essas palavras, retratando esse quadro difícil e delicado de sua vida. Mas tb se vê claramente o quanto vc lutou para poupar os seus amados avós de sofrimentos inúteis, fora do lar, junto aos familiares.
A vida é assim mesmo, amada! Nem sempre acontecem coisas do jeitinho que queremos, e é sabedoria acatar, (não aceitar) com certa dose de paciência e tocar em frente!
Beijossss
Cara mia, vc mora em meu cuore!
Nossa, querida Lu... Me emocionei com teu texto... Imagino a dureza de lidar com uma situação dessa... Parece que assim "aprendemos" a lidar com os desafios da vida...
ResponderExcluirPassei para agradecer tua visita e carinhosas palavras que deixou em meu cantinho, e desejar-lhe também um feliz ano novo com tudo de bom para você, minha querida amiga, e sua família.
Beijos, com carinho especial ♥