Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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domingo, 21 de setembro de 2014

A Casa do Esquecimento

Prólogo



Era uma dessas noites chuvosas e solitárias quando ouvi o bater do sino lá no portão da frente.
Acendi as luzes, calcei meus chinelos enrolando-me no cobertor com  o coração quase me saltando pela boca. Passei pelo corredor e as portas estavam todas fechadas imperando o silêncio, por sorte!
Desci as escadas meio atordoado, segurando-me no corre mão, aparador de minhas frágeis pernas porque o sino não parava de gritar. Apressei-me!
Quando finalmente destranquei o portão, deparei-me com dois garotos metidos em um camisolão, que a estas alturas, estavam colados aos corpos que tiritavam de frio.
Tudo ocorreu numa fração de segundos:
Nossos olhares! Meu espanto!
Pedido de abrigo e um grande sentimento de pesar...
Rapidamente os coloquei para dentro e foi aí que se iniciou uma série de descobertas, jamais pensadas por mim. 


A vida, as horas... Viver é apenas uma chama, e o tempo somente um 
sopro.



CENA I - Casa & Comida

Deveria ser mais ou menos 05h: 40min da manhã e a Sra. Dummont já preparava o desjejum, não esquecendo seu melhor ingrediente, que usava aos montes: O AMOR.
Sua cozinha era ladrilhada em azul e branco, e os azulejos ilustravam pequeno panorama bucólico com pomares e frutas ao chão e um céu infinito de tão real.
No fogão, tigelas, sopeiras e grandes caldeirões misturavam-se em sabores e odores agradáveis e tão somente convidativos.

O forno ia devolvendo assadeiras recheadas de pães doces que ela cobria com creme de baunilha e polvilhava com açúcar, feito neve ralinha. Bolos e tortas de frutas juntavam-se à guarnição de delícias que logo mais seria servida no salão.
Sobre o guarda comidas  repousava, sob um pano de prato, sonhos recheados com a macia  geleia de amoras mais cheirosa de que se teve notícias.

A Sra. Dummont era a avó perfeita que toda criança desejava ter. Sua voz sempre macia sabia adular, mas se preciso fosse ralhava com zelo e autoridade.
Corpulenta e de bochechas rosadas, sustentava  um lindo coque de cabelos fartos que deixava escapar alguns cachos prateados pelo grisalho do tempo.

Usava sempre vestidos com estampa xadrez, com palas e suspensórios afivelados aos seios. O corpo da saia lhe descia até o meio da canela e terminava em um babado com o xadrez invertido dando a impressão de um tecido outro que não fosse do próprio vestido. Nos pés, calçava sempre botas de cano curto na cor ocre ou marrom escuro, com ilhoses prateados, já gastos pelo tempo.

Ela era a responsável em cuidar da cozinha do orfanato.
No balcão adjacente a pia repousavam três grandes bules de alumínio com chocolate quente, que logo mais iria parar na mesa central. E já com quase tudo pronto, a boa mulher, finalizava a farta refeição com quatro pães de forma que acabara de assar, colocando-os em bandejas para esfriarem e serem cortados.

No refeitório ouvia-se o vozerio da infância, e com ele mais um dia, talvez comum para a maioria dos internos, mas não para Enzo e Miguel.


(...)continua




4 comentários:

  1. Estás muito inspirada,Lu! Lindo mais esse! bjs,m chica

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    1. Gostou Chica? rsrs Estou finalizando a outra parte.
      Obrigada pela leitura e partilha.
      bjs

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  2. Bacana a história, Lu.
    Acho que abrir as portas de casa à noite para duas crianças pedindo abrigo é um gesto muito difícil... poucos de nós poderíamos fazê-lo. Acho que eu não faria... um prato de sopa, um agasalho, e adeus.
    No segundo texto, a descrição de uma avó que nunca tive. Mas gostaria de ter tido.
    Abraços!

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    1. Hehehe... Nos dias de hoje, né Ana, vc não está tão errada, colocar pra dentro de casa, desconhecidos?? Não dá msm. Mas na época do conto era propício.

      O texto a seguir que você falou da avó rsrs...foi justamente na minha vó que me inspirei pra criar essa personagem. Bacios

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Lu C.