Era uma
dessas noites chuvosas e solitárias quando ouvi o bater do sino lá no portão da
frente.
Acendi as
luzes, calcei meus chinelos enrolando-me no cobertor com o coração quase me saltando pela boca. Passei
pelo corredor e as portas estavam todas fechadas imperando o silêncio, por
sorte!
Desci as
escadas meio atordoado, segurando-me no corre mão, aparador de minhas frágeis
pernas porque o sino não parava de gritar. Apressei-me!
Quando
finalmente destranquei o portão, deparei-me com dois garotos metidos em um
camisolão, que a estas alturas, estavam colados aos corpos que tiritavam de
frio.
Tudo
ocorreu numa fração de segundos:
Nossos
olhares! Meu espanto!
Pedido de
abrigo e um grande sentimento de pesar...
Rapidamente
os coloquei para dentro e foi aí que se iniciou uma série de descobertas,
jamais pensadas por mim.
CENA
I - Casa & Comida
Deveria ser mais ou menos 05h: 40min da manhã e a Sra.
Dummont já preparava o desjejum, não esquecendo seu melhor ingrediente, que
usava aos montes: O AMOR.
Sua cozinha era ladrilhada em azul e branco, e os azulejos
ilustravam pequeno panorama bucólico com pomares e frutas ao chão e um céu
infinito de tão real.
No fogão, tigelas, sopeiras e grandes caldeirões
misturavam-se em sabores e odores agradáveis e tão somente convidativos.
O forno ia devolvendo assadeiras recheadas de pães doces que
ela cobria com creme de baunilha e polvilhava com açúcar, feito neve ralinha.
Bolos e tortas de frutas juntavam-se à guarnição de delícias que logo mais
seria servida no salão.
Sobre o guarda comidas
repousava, sob um pano de prato, sonhos recheados com a macia geleia de amoras mais cheirosa de que se teve
notícias.
A Sra. Dummont era a avó perfeita que toda
criança desejava ter. Sua voz sempre macia sabia adular, mas se preciso fosse
ralhava com zelo e autoridade.
Corpulenta e de bochechas rosadas, sustentava um lindo coque de cabelos fartos que deixava
escapar alguns cachos prateados pelo grisalho do tempo.
Usava sempre vestidos com estampa xadrez, com
palas e suspensórios afivelados aos seios. O corpo da saia lhe descia até o
meio da canela e terminava em um babado com o xadrez invertido dando a
impressão de um tecido outro que não fosse do próprio vestido. Nos pés, calçava
sempre botas de cano curto na cor ocre ou marrom escuro, com ilhoses prateados,
já gastos pelo tempo.
Ela era a responsável em cuidar da cozinha do
orfanato.
No balcão adjacente a pia repousavam três
grandes bules de alumínio com chocolate quente, que logo mais iria parar na
mesa central. E já com quase tudo pronto, a boa mulher, finalizava a farta
refeição com quatro pães de forma que acabara de assar, colocando-os em
bandejas para esfriarem e serem cortados.
No refeitório ouvia-se o vozerio da infância, e
com ele mais um dia, talvez comum para a maioria dos internos, mas não para
Enzo e Miguel.
(...)continua





Estás muito inspirada,Lu! Lindo mais esse! bjs,m chica
ResponderExcluirGostou Chica? rsrs Estou finalizando a outra parte.
ExcluirObrigada pela leitura e partilha.
bjs
Bacana a história, Lu.
ResponderExcluirAcho que abrir as portas de casa à noite para duas crianças pedindo abrigo é um gesto muito difícil... poucos de nós poderíamos fazê-lo. Acho que eu não faria... um prato de sopa, um agasalho, e adeus.
No segundo texto, a descrição de uma avó que nunca tive. Mas gostaria de ter tido.
Abraços!
Hehehe... Nos dias de hoje, né Ana, vc não está tão errada, colocar pra dentro de casa, desconhecidos?? Não dá msm. Mas na época do conto era propício.
ExcluirO texto a seguir que você falou da avó rsrs...foi justamente na minha vó que me inspirei pra criar essa personagem. Bacios