Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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sábado, 25 de maio de 2013

Trilogia do Sentimento

Recentemente escrevi alguns poemas nostálgicos e melancólicos e  para cada um deles fiz uma blogada.

Foram poemas escritos com a tinta da vida, rubra e poderosa que faz pulsar cada pedacinho deste meu coração. E para minha surpresa e contentamento fui presenteada pela amiga Gracinha Lacerda com uma análise literária personalizada para cada um deles, que apresento a seguir.

A Trilogia do Sentimento é somente o título para esta blogada, porque o verdadeiro título, dado pela Graça foi : Trilogia de Poemas com Verbos

Obrigada querida amiga e mestra - aprendo muito contigo. Aprendo principalmente o reconhecimento com o semelhante que doa seu tempo para trabalhos como este e outros tantos pelo mundo afora.
A gente nunca esquece as pessoas com quem aprendemos a crescer!


POEMA 1 -




DETALHE ÍNTIMO (by Lu C.)


Sou voz quando choro
Sou giz quando deixo marcas
Sou água nos telhados
em dias de folhas mortas
Sou também escultura
quando a pele veste meu íntimo

Quero somente a paz
do sono inocente
Sentir semelhanças
com pássaros
Conduzir trilhas
em meus vãos

Sou pássaro quando o íntimo
faz trilhas

Sou folha morta
nos telhados

A inocência é apenas
giz no choro

A escultura é vão solitário
na pele que -
deixa marcas

A paz traveste a pele -
branca semelhança
com a luz, e na ousadia
de ser quem sou
adormeço



ANÁLISE LITERÁRIA
 
O poema Detalhe Íntimo foge - bastante! - do estilo atual pelo qual se enveredou a autora Lu Cavichioli, uma vez que a poetisa vem optando pela linha mais próxima da moderna, em que a ruptura com o passado, os versos milimetricamente erigidos, e a forma fixa passa a não integrar mais o espírito e o estilo do poeta modernista, a partir da Semana de Arte Moderna, de 1922.
Esse poema permeado de verbos constata essa realidade e retrata uma leve nostalgia na sua arte de compor versos: a autora parece cansada de sua condição humana demais, e apela para uma possível transfiguração de seu ser em que poderia ser eventualmente um pássaro, uma estátua (nua), o giz, a água ou a folha (morta). Simbolismos da realidade sem vida, mas que também possui, cada um, sua função no universo.
Cansada de desejar a transfiguração, adormece o sono inocente - o sono dos justos.

 


 
POEMA 2 -
 
 
 
 
 
 
 
UM ACORDE, UMA NOTA SÓ (by Lu C.)
 
Meu querido -
não posso revelar
tua identidade - e nem preciso...

Em minhas entranhas
vejo tua imagem generosa
de sorriso plácido
sincero e totalmente
amalgamado em minhas células

Lembro das manhãs de domingo -
na tela - o Leão da Metro
fazendo rugir minhas palmas
ecoando no ruído do teu coração

Brincadeira de gato e rato
Tom & Jerry escreviam ali um pouco
de nossa história tão completa...
inesquecivelmente sólida
além da vida...

A saudade nem tem mais esse nome
de tão imensa tua falta em mim
porque foste embora ainda que vivo
e sei - que estás afastado somente
em corpo...

Em meu coração pulsa o tamborilar do teu
Em tuas mãos entrelaço as minhas
teu colo é fraco para meu peso
mas teu abraço é gigante bélico

Levarei comigo - até tombar este corpo:
teu amor
tua confiança
teu reconhecimento & dedicação infinitas

Obrigada por existir
por me fazer existir
Em teu caminho que é meu

Te amo e te guardo
simples assim...


 
ANÁLISE LITERÁRIA
 
"A forma com que a poeta Lu Cavichioli escreve esses versos, tem como característica principal a mesma constatada no poema Detalhe Íntimo, ou seja, seu poema é rico em verbos, e não faz parte do estilo atual da autora, muito mais substantivado e adjetivado.
É interessante observar que ambos parecem pertencer à mesma fase da vida da poeta, pelo simples fato de possuir um mote comum, o da infância e o da inocência. Porém, longe de ser um poema pueril, Lu Cavichioli descreve em versos a simbiose que existe entre ela em sua infância e seu querido personagem a quem prefere não revelar. Lembranças, brincadeiras, que faziam parte daquele seu mundo - mágico - e que agora trazem saudade, porque para a autora, nada mais forte que sua presença, o que lhe proporciona a mais profunda confiança, solidificada como em um único ser!"
 
 
 
 
 

POEMA 3 -





CRISTAL EM CACOS (by Lu C)

Em cada gesto teu -eu encontrava
a paz - e
teu sorriso (antigo)
era filigrana preciosa

Tua face era suave e tuas mãos
sabiam doar

Em ti eu achava abrigo
e calor
Tua voz e teu canto eram
somente meus

Eu não me importava
se era dia, noite
ou madrugada...
Só sei que estavas lá

Hoje encontro-me sozinha-
barco esquecido no cais...

Na areia faço meu túmulo
meu nome é solidão

Recolho-me e aproveito para olhar
teu rosto - gravado em mim -
e sem rumo, coração parando de pulsar
procurando meu ninho
pedaço que sofre a tua dissimulação
cruel, talvez doentia...




ANÁLISE LITERÁRIA:

"No poema Cristal em Cacos, a autora Lu Cavichioli faz também uso constante de verbos, e por essa razão, esse poema faz parte da trilogia com os outros dois poemas: Detalhe Íntimo e Um acorde, uma nota só. Poema carregado de nostalgia, ele sugere uma situação onde houve - outrora - tanta devoção a um personagem de sua intimidade, tão próximo como um familiar. Alguém a quem a autora admirava, e mais que isso, sentia-se abrigada por esse calor, e forte por sua presença.
Tudo agora respira solidão, pois a personagem que dantes lhe oferecia abrigo, é hoje dissimulada, e assim, nada mais resta."



*POEMAS DE LU CAVICHIOLI*

*ANÁLISE LITERÁRIA DE GRAÇA LACERDA*

2013

7 comentários:

  1. Que interessante ler a análise feita por ela! Quando li seus poemas entrei em um mundo bem diferente, apreciando suas construções lindas e me deixando levar pelo sentimento. Uma apreciação técnica feita por quem tem competência, é show. Bjs.

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  2. Oi LU,

    Os poemas são maravilhosos e a análise surpreende, pois além da técnica ainda observa e ressalta os sentimentos que embasaram a inspiração. Muito interessante.

    Beijos.

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  3. oi Lu,

    vou precisar voltar mais e mais vezes aqui,
    para reler seus poemas e a análise,
    isso é para se ler muitas vezes,
    perfeito...

    beijinhos

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  4. Todos os três poemas são lindos, Lu. Gostei das análises literárias de Gracinha. Mas confesso que, apesar de às vezes escrever resenhas para filmes e livros, não consigo escrever análises literárias sobre poemas. Acho que as linhas vão apenas entrando e fazendo sentido enquanto leio, um entendimento sem palavras - de alma para alma. Não consigo colocar no papel.Portanto, ao comentar poemas, limito-me demais a um comentário tipo "Amei!" ou "Lindo" ou "Concordo com você." Porque é assim. Mas não significa que não prestei atenção. Lá no Recanto tem o Jô do Recanto, que sempre escreve sobre meus poemas, e ao ler as análises dele, eu penso: "Nossa, como ele conseguiu dizer tanta coisa?" Pois para mim, meus poemas são apenas poemas...

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  5. Ana, análises como esta são sempre feitas por alguém que entenda de literatura e gramática, como é o caso da Graça e do Prof. Jô lá do Recantos que já analisou meu livro todinho, tipo dissecou, entende? Eu também fiquei pasma com tanta coisa que ele disse.
    Ele fez análise de meus contos também, coisa linda, viu.Ele é fera.

    A Graça também tem critérios para tanto porque é mestra em portugues e literatura.

    Sabe Ana, eu não consigo dizer só que o poema é lindo, que eu amei e tal (mas nada contra quem diz). Eu nesses anos todos de janela por sites literários fui aprendendo a analisar sob o aspecto lírico, cadencia e construção do poema.
    Particularmente não gosto de rimas tipo aquelas forçadas. Elas tem que vir naturalmente e quando se lê, precisam ter musicalidade.

    Agora, nem me venha dizer que teus poemas são APENAS poemas rsrs... Me poupe, né?
    Você tem a poesia na veia amiga e escreve lindamente porque não usa clichês, nem chavões, aquelas coisas chatas e sem propósito feito: a paz branca, o perfume da rosa, a noite escura, a lua de prata... E aí vai.

    Pra mim, o poeta tem que ousar e saber escrever também, lógico. Porque tem tanta coisa ruim por essa NET afora que quando leio , saio voando kkkkkkk.

    Quem é poeta nasce feito, assim como outras vocações.
    E nem se atreva a chamar seus poemas de "apenas" poemas.

    Eu fico meio abismada, sinceramente, com teus versos. Porque você tem uma capacidade de encantamento em suas linhas poéticas que são verdadeiras pérolas.

    Tenho alguns preferidos, e eu amo quando você fala de pássaros, folhas, chuva e a natureza de um modo geral. Talvez porque meu estilo (apesar) de surreal, tende para esse lado que tem a natureza como pano de fundo.

    bacios pra ti miguxa!

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  6. Oi Lu, minha querida amiga!

    Sabes que amo fazer análises literárias...seja de contos, poemas, crônicas, resenhas (como a Aninha faz), pois isto é um exercício enorme para nossa profissão. E, particularmente, acho uma delícia fazer!
    Para analisar poemas, é só tentar se distanciar um pouco, deixar de lado a emoção e o sentimento - só então consegue-se fazer a análise.
    Claro que há profissionais muito mais, digamos, ''credenciados'' que eu para essa façanha...rs. E até mesmo com maior conhecimento literário e com competência bastante para refutar algo que eu disse, sem a menor cerimônia! E eu tiro meu chapéu para essas pessoas, como por exemplo, o Prof. Jô do Recantos, que não conheço e que você citou.
    Um beijão enorme!!!

    ***fiquei muito feliz ao ver que que todas apreciaram o que escrevi para seus poemas. Além de você, claro, que é suspeita pra meus comentários e análises, sempre.

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  7. Gracinha do meu cuore, suspeitíssima eu né?kkkkkkk Ah tá...
    Vc sabe que aprendo sempre e mais, contigo!

    bacios cara mia

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VEM!

Lu C.