Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É Preciso Florir


A vida me permitia ficar. Era tudo muito simples porque eu podia ver tudo quanto eu quisesse, fosse dia ou noite, e isso fazia de mim expectador universal em longa viagem dentro de algum espiral metálico que cuspisse fogo pelas ventas.

Eu esperava ansiosa pelas águas de março e os ventos de setembro redescobrindo a vida e a morte ao meu redor. Justamente porque eu estava em constante movimento e as mudanças eram crayons que me desenhavam no panorama artístico de um pintor imaginário. Talvez ele vivesse no alto da serra, cortando lenha e colhendo aromas de florestas na tentativa de perfumar meu coração altaneiro e fugaz.

Lembro-me da estatura varonil dos folículos e pedúnculos raquíticos que nasciam no beiral da estrada, lá pelas bandas da ponte, onde o ar era altamente castigado pelo abraço ofegante dos gases maléficos que invadiam as narinas da atmosfera.

De quando em vez eu sonhava com as montanhas que arrogantes gesticulavam rostos no ocaso abrindo as cortinas da lua para então eu repousar e me tornar um gigante imantado no marinho do azul.


Dos ninhos eu era dona absoluta e minha força era oásis ao meio dia. E assim eu ia ficando, crescendo e multiplicando junto à generosidade da mãe Gaia, cujo plantio favorável e afável, zelava - ao longe - um tanto desgastada.

Cresci seguindo meu curso que era natural e essencial dentro das tantas possibilidades que me eram conferidas naquele momento (talvez único), antes do abate.


Ipê Roxo



Ipê Amarelo



Ipê Rosa



Ipê Vermelho


FIM DO CAMINHO (salve o verde e todas as outras cores)

Minhas flores com certeza iriam parar em algum vaso
com pouco oxigênio e nenhum talento
Minhas folhas ficariam
ausentes de clorofila - e meus
brotos nem veriam a luz
Meu tronco alvejado,
marcado e dolorido
choraria seivas
Minha raiz (órfã)
escreveria no solo...
Eu fui APENAS uma árvore!

by Lu Cavichioli


*Texto e poema unidos num grito de alerta aos homens de boa vontade que (ainda) vivem no planeta - nosso aconchego, nossa casa- nosso bem querer.

* nota da autora: Escolhi o IPÊ (que eu particulamente amo) para representar nossa flora.


BOA SEMANA A TODOS!