Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



Creative Commons License Todos os trabalhos são licenciados pela Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported License. Não comercialize os trabalhos Não modifique o conteúdo dos mesmos Se quiser reproduzir informe os devidos créditos

Pegue este efeito no Site Tony Gifs Javas

sábado, 3 de maio de 2014

Razões do Coração Parte IV

A semana transcorreu dentro da normalidade de qualquer família que trabalha e cumpre com seus deveres esperando que seus direitos lhes sejam conferidos.
Finalmente no sábado iriam ao orfanato buscar uma companhia para Alice nas celebrações natalinas com direito a passar também o reveillon com a família.

Eram três da manhã quando Rose acordou ofegante com o mesmo sonho que já a atormentava fazia algum tempo. Então pé ante pé desceu as escadas e foi preparar um chá.
Sentada e com um dos cotovelos sobre a mesa, ela apoiava a cabeça ao mesmo tempo em que olhava para o relógio, e seus olhos pesados traziam à tona flashes do sonho. Nessas imagens ela corria por um campo de trigo atrás de uma menina que teria mais ou menos uns 2 anos. A pequena corria feliz segurando uma palma branca na mão e de vez em quando olhava para trás dizendo :

_Vem depressa, senão você não conseguirá me alcançar.

Rose piscava e fechava os olhos a fim de lembrar-se do rosto da garotinha, mas era inútil. Parecia que ela não tinha rosto, assim era sua impressão.

Quanto mais ela corria mais a menina se afastava,até o trigal ficar nevoento e nele fazer desaparecer a figura meiga que ela tanto perseguia. E sempre acordava nesse momento. Isso a estava consumindo, e tanto, que ela precisava dividir com alguém.

Parecia que o chá estava fazendo algum efeito, ou seria o cansaço que estava a lhe vencer?

Rose levantou-se e foi pra sala, onde a luz de um abajur lilás configurava um céu astral no ambiente. Sentou no sofá e lá encontrou a manta do pai cobrindo-se... Enquanto o sono lhe abraçava.

O sol naquele dia permitiu-se nascer às 05h:45min e seu Carmo já estava de pé. Abriu as cortinas, arejou o quarto aproveitando para admirar o jardim, a rua ainda adormecida, as árvores parindo seus pássaros e logo pensou que naquele sábado iria enfeitar a árvore com Alice. Subiria ao sótão para fuçar nas caixas, pegar as bolas coloridas e os enfeites novos que Marcos comprara. Estava mais do que na hora de arrumar o pinheiro, aliás, atrasados demais para o gosto dele. Mas antes sentou-se na cama, em frente à janela, lembrando-se de como Rose gostava de pendurar os enfeites e as frágeis bolas feitas de vidro pintadas à mão. Naquela época sua garotinha tinha seus 5 anos de idade acreditava piamente na existência do bom velhinho fazendo seus pedidos por cartinhas que eram “supostamente” enviadas ao Polo Norte, e de quanto eles se divertiam escrevendo-as.

Rose era irreverente, curiosa e muito inteligente e como toda criança cheia de perguntas, muitas das vezes tão pitorescas que era quase impossível de responder.

Lembrou-se também da primeira vez em que ele e sua esposa trouxeram a primeira órfã para passar o natal com eles. Era uma garotinha graciosa, sardenta e de cabelos ruivos e escorridos. Tinha um sorriso inexplicável no rosto e distribuía abraços e afagos a todos que encontrava, mesmo que nunca os tivesse visto. Naquela manhã chegaram com Emma em casa e lhe apresentaram Rose que na mesma hora fez uma careta de desapontamento e ciúme.

Emma a abraçou dizendo que seriam amigas e que o Papai Noel viria porque elas tinham sido boas meninas durante o ano e mereciam ganhar recompensas. Rose mostrava a língua e virava as costas para a pobre que chorava em segredo. E foram-se lá três ou quatro anos de busca para o encontro entre as meninas e Rose. Pena que em todas as vezes ela emburrava .

Perdido em suas lembranças seu Carmo nem percebeu as horas e quando deu por si eram 07h:15min e seu estomago roncava feito locomotiva enferrujada.

Colocou seu robe saindo no corredor sabendo que a família dormia tranquila (ainda). Desceu as escadas com o intuito de ir preparando o desjejum quando viu a filha dormindo no sofá. De pronto estancou seus passos na escada. Coçou o queixo desenhando no ar uma expressão aturdida e perdida nas horas em que ficara sentado em sua cama vagueando enquanto sua filha dormira no sofá... Estranha sensação aquela - o que teria acontecido?

Aproximou-se do sofá, ficou a admirá-la e ali sentiu o quanto a amava. Sim, amava mais que a própria vida e percebeu em seu rosto sereno o quanto era linda. Seus cabelos, de um louro acinzentado caíam em cachos pela almofada, e ainda conservava a forma antiga de dormir - com os braços enlaçados em si mesmos e uma parte do rosto aconchegada no seio da almofada. A boca delicada e rosada lembrava a mãe...

Seu Carmo ficou ali por alguns segundos, talvez o bastante para que o filme de sua vida lhe contasse que estava no fim dela e que poderia partir a qualquer momento. No entanto iria feliz pela missão cumprida e por saber que tinha entregado sua filhota a um homem íntegro e de caráter irrevogável.

Sua costumeira pigarra matinal lhe denunciou, acordando Rose, que abriu os olhos sem atinar onde estava. Mas logo seus reflexos lhes fizeram levantar, esfregando os olhos e bocejando, vendo a figura de seu velho bem ali, plantado na beira do sofá.
(continua)...

3 comentários:

  1. Está emocionante e adorando estou! beijos,chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada querida Chiquita, eu que estou adorando que vc venha ler as continuações!
      beijos

      Excluir
  2. Papai Noel é democrático: só existe para os que acreditam nele...

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar o Retratos em Degradê
o blog só tem a ganhar com a sua visita e comentário

VEM!

Lu C.