Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Razões do Coração - Parte V

Hã... Oi pai... Espreguiçando-se
-Filha, você passou a noite aqui?
... É... Que... Ai papai foi sim. Estava sem sono, vim tomar um chá e acabei me encostando aqui e... Ah, foi isso, nada demais, nem se preocupe.


Num sobressalto exclamou alto:
_NOSSA, QUE HORAS SÃO? Ficamos de ir ao orfanato... Ai que cabeça a minha...
Seu Carmo riu-se ajudando-a a levantar.
-Pois é filhota... Mas fique calma, ainda é cedo e eu já telefonei ontem para o orfanato avisando de nossa ida.
-Ahh, menos mal. Bem, já que acordei de um sonho bom, vou continuar nele e tomar café com o velhinho mais adorável do mundo.




O Orfanato ficava em local afastado da cidade e sua arquitetura imponente e lindamente antiga fazia parecer uma estampa vintage.


Na última curva da Estrada dos Pêssegos, Seu Carmo sorria e em seu contentamento dizia:



_Ah, olhe filhota, o prédio foi conservado, só mudaram a cor. Está muito mais alegre do que há 30 anos, você lembra como era?

-Não muito pai. Lembro-me da fachada acinzentada e dos lampiões plantados logo na entrada, do jardim... Mais ou menos. Acho que tinha um roseiral enorme, com alamedas de cerâmica, sabe aquelas de caquinhos mesclados -correto?

-Isso mesmo, balançando positivamente a cabeça e esticando um sorriso franco.

Chegando ao portão principal perceberam que havia no local uma guarita com seguranças e precisavam se identificar para terem acesso. Feito isto, o vasto portão rosado abriu-se duplamente para os lados e seus arabescos encantaram Rose que ficou admirando e tanto, que precisou olhar para trás vendo-o fechar-se lentamente.


Entraram por um caminho ladeado por jardineiras múltiplas com uma variedade quase infinita de flores. Rose ia observando encantada o lado direito da paisagem que exibia um pequeno bosque com ciprestes, numa grande variedade e algumas coníferas já exibiam seus frutos e nos espaços entre elas haviam alguns arbustos floridos com lavandas e mini -rosas.


Já do outro lado havia um gramado onde a clorofila era sua rainha , permitindo às borboletas brincarem com abelhas e beija-flores sobre um canteiro de margaridas e sempre-vivas. Ao longe deste mesmo lado, havia um conjunto de casinhas que lembravam um acampamento de férias.

O caminho até a entrada era um tanto longo e pai e filha iam felizes e encantados até estacionarem o veículo nas vagas em frente a uma escadaria larga com piso de granito mesclado entre o branco e o bege.

Ao descerem do carro avistaram no alto da escada uma mulher de aparência jovem, metida em um terninho azul marinho com risca de giz e uma camisa de seda branca com detalhe num delicado laçarote no pecoço. Trazia nos cabelos ruivos uma tiara da mesma cor do terninho.

Seu Carmo, apesar da idade, subia as escadas como se fosse um menino indo em busca de doces. Rose o segurava pedindo calma, e com certeza sua costumeira ansiedade já aflorava e sua pressão arterial fervilhava.

Bufando e com o rosto afogueado seu Carmo cumprimentou a moça:

_Bom dia, moça - qual sua graça?

_Bom dia, senhor - meu nome é Suzel - e dizendo isso estendia a mão para Rose fechando as apresentações.

-Estava a espera de vocês. Falei com o senhor ontem, pois não?

-Sim, sim. Viemos buscar uma garota.

Os olhos de seu Carmo brilhavam e Rose pode ver estrelas neles.

O vozerio das crianças enchia o corredor e Rose viu-se menina dando a mão para sua mãe. Rapidamente olhou o piso e entrementes pensou: “o mesmo piso...”Olhou em volta recordando as paredes, as tapeçarias o corrimão, tudo igualzinho e muito bem conservado.

Suzel levou-os até seu escritório onde poderiam conversar com mais calma. Porém seu Carmo não conteve a curiosidade e perguntou:

-Com licença moça, você por acaso é parente da Sra. Dis’téfano?

-Com um sorriso encantador e cheio de saudade a garota respondeu:

_Sim, ela era minha avó.

_Era?

-Infelizmente. Ela faleceu há um ano, senhor.

As estrelas nos olhos de seu Carmo emudeceram de brilhar. Quebrando o gelo Rose perguntou pela menina que iriam levar, demonstrando desejo de conhecer as dependências do orfanato.

A caminho do refeitório passavam pela varanda gigantesca protegida por muros vazados permitindo ver (ainda) uma fatia do jardim.

Rose caminhava lenta e ao mesmo tempo olhava para o bosque de ciprestes quando parou soltando um “OOOH” acústico assustando seu Carmo e freando Suzel num sobressalto.

-Olhem, olhem... Rápido! Quem é a menina que corre entre o arvoredo?

Suzel mirou seus olhinhos frenéticos e nada viu.- Você viu, pai... Uma garotinha correndo com vestidinho amarelo e cachos voando ao vento.

Seu Carmo segurou forte no braço da filha puxando-a pra perto dele. - Rose! Rose! Que menina??? Não há ninguém ali.

-É bem verdade, senhor - exclamou Suzel- nossas crianças não ficam soltas no bosque sem companhia.

Rose sentiu uma tontura e teve que ser amparada por eles. Fizeram-na sentar em um banco ali mesmo na varanda... Enquanto ela insistia ter visto a menina passou a mão pela franja e seu rosto estava transformado numa expressão de pavor e amor.

Como poderia tal mistura dentro de um coração?

(... continua)

5 comentários:

  1. Nooooooossa, emoção fluindo...Adorando,bjs,chica

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    1. Oi Chiquita, está mesmo, muito comovente... E vem mais por aí! Até eu choro quando re(leio) rsrs
      beijo minha linda, obrigada por compartilhar!

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  2. oi Lu,

    não vejo a hora de ler a continuação...
    pura emoção esse seu conto...

    beijinhos

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    1. Rô lindeza, ainda hoje posto continuação... Eu que escrevei fico comovida e entra uns ciscos aqui nos olhinhos rsrsrsrs
      Obrigada pela leitura e teu compartilhar de emoções.
      bacios cara mia!
      LU C.

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  3. Oi Lu
    Muito bem narrado! Seu conto prendeu minha atenção e fiquei querendo continuar a leitura, por isso, voltarei outas vezes ao blog.
    Agradeço pela visita em Escritos de Zui e pela apreciação do Conto Iolanda. Suas palavras e a de outras amigas, me deram incentivo para continuar escrevendo.
    Abraços.

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Obrigada por visitar o Retratos em Degradê
o blog só tem a ganhar com a sua visita e comentário

VEM!

Lu C.